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Resenha | A pequena sereia e o reino das ilusões

6 de julho de 2020
A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões é uma obra da autora Louise O’Neil,  lançado pela Darkside Books em 2019, pelo selo Darklove. Uma edição maravilhosa, com um capa linda e, além disso, contando uma história sob um viés feminista, me deixou ainda mais louca para ler esse livro. (Não consegui ler em 2019 graças ao meu TCC)
A história do livro nos é contada por Muirgen (ou Gaia). Ela é a sexta filha do rei dos mares, a mais bela entre elas e a preferida de seu pai. Ser a filha preferida não garante a Muirgen privilégios, muito pelo contrário, com isso ela ganhou muito mais obrigações. Ela está prestes a se casar, com o melhor guerreiro do exército de seu pai, um homem com idade para ser o seu avô. Muirgen se parece muito com sua mãe, tanto na aparência como também no interesse pela superfície, assim como no clássico da Disney, ela tem seus próprios sonhos, além do desejo de saber o que realmente aconteceu com sua mãe.
A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões
Em seu aniversário de 15 anos, Muirgen pode subir a superfície pela primeira vez (as sereias só podem subir até a parte de cima do oceano após completarem 15 anos). Enquanto estava na superfície, ela avistou um garoto, o bonito e charmoso Oliver. Minutos depois Muirgen precisa salvá-lo da morte, e assim ela o arrasta até a areia e a partir daquele momento, ela se apaixona por ele e passa a sonhar com uma vida ao seu lado. 
Muirgen volta para o fundo do mar, decidida a deixar aquela vida para trás, buscar seus sonhos e fugir daquele casamento arranjado.  Ela acabou arriscando sua vida no oceano indo atrás da bruxa do mar (a bruxa seria a única pessoa  com poderes para realizar sua vontade), e mesmo com tudo que tem que deixar para trás, Muirgen resolve ir atrás dos seus sonhos… custe o que custar. 
Esse livro nos apresenta um oceano cheio de seres mágicos, mas não é nada que você tenha visto nos contos da Disney.  O reino no fundo do mar, é cheio de regras de comportamento, onde as sereias não possuem voz. Muirgen e suas irmãs precisam obedecer seu pai, o temido Rei dos Mares, caso contrário sofreram consequências.  
A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões

O reino do mar é bem familiar com o que já conhecemos nos clássicos da Disney, a diferença está na estrutura social e na cultura que é instalada no mesmo.  Muirgen vive em uma sociedade machista, na qual os diretos das mulheres são anulados, elas são apenas vistas como um objeto, precisando está sempre bonita e arrumada, as mulheres são silenciadas e seus maridos são seus verdadeiros donos.  

O romance entre Muirgen e Oliver, foi bem incomodo para mim, mas foi muito bem justificado. Muirgen foi para a superfície alimentando o sonho e a esperança de que Oliver iria se apaixonar por ela, sem ao menos o conhecer e saber como realmente era Oliver e com isso o romance só existia na cabeça dela.
Durante a leitura do livro Louise O’Neil vai nos cutucando o tempo todo com várias situações que podemos simplesmente visualizar em nossa realidade. É um livro que incomoda, a leitura te deixa com agonia com tudo que está acontecendo e você passa a desejar que algumas revoluções aconteçam. 
As mulheres daquele reino estão em constante competição, podemos ver isso através das irmãs de Muirgen, uma quer sempre ser melhor que a outra, elas se mutilam para ficarem mais bonitas, só para serem usadas como simples objetos, não existe sororidade, não existe empatia entre elas (e não é muito diferente do que vivemos realmente, acho que por isso incomoda tanto).
Não fiquei surpresa com a sociedade que nos é apresentada no livro, e a todo momento fiquei imaginando como seria o desfecho e confesso que eu esperava bem mais do que foi entregue, sempre esperamos por um final feliz… digamos que eu esperei por um final bem mais revolucionário. 
A semelhança entre o reino da história e o que faz parte da nossa realidade é incrível, e isso é ruim! Esse livro só serviu mais ainda para que eu afirme meu posicionamento e lute para que a realidade que Muirgen viveu não seja totalmente a minha daqui há alguns anos.  É inevitável você não torcer por Muirgen, você torce a todo momento por ela, que ela se liberte, que ela liberte suas irmãs, que a liberdade de expressão feminina exista e que os homens sejam todos destruídos (kkkk tá, nem todos)
O livro se faz extremamente necessário, ele abre um leque de discussão de pautas que abordam o machismo de uma maneira que incomoda, que faz o leitor sentir uma enorme repulsa por aquela sociedade.  A Darkside maravilhosa como sempre arrasou nesse livro e a Louise O’Neil tem uma escrita maravilhosa, fluída e impactante.

Título: A pequena sereia e o Reino das Ilusões
Título Original: The Surface Breaks

Autor:  Louise O’neill
Editora: Darkside
Páginas: 214

Sinopse: Em seu aniversário de quinze anos, quando finalmente sobe à superfície para conhecer o mundo de cima, Gaia avista um rapaz em um naufrágio e se convence de que precisa conhecê-lo. Mas do que ela precisa abrir mão para transformar seu sonho em realidade? E será que vale a pena? 
A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões chega para trazer um pouco mais de contos de fadas para a linha DarkLove, da DarkSide® Books. Mas não do jeito que você espera; aqui, a história original de Hans Christian Andersen — e também suas versões coloridas e afáveis em desenhos animados — é reimaginada através de lentes feministas e ambientada em um mundo aquático em que mulheres são silenciadas diariamente — um mundo que não difere tanto assim da sociedade em que vivemos. No reino de ilusões comandado pelo Rei dos Mares, as sereias não recebem educação, não têm direito de fala, devem se encaixar em um padrão de beleza impossível e sempre sorrir. É neste cenário que a autora irlandesa Louise O’Neill apresenta uma história sobre empoderamento e força feminina. Com narrativa e olhar afiados, a autora ainda desenvolve aspectos do conto original que passaram batido, como o relacionamento de Gaia com as irmãs e as camadas complexas da Bruxa do Mar. 

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  1. Bem interessante a pegada do livro. Essa ideia de pegar um personagem de princesa, normalmente moldada para ter um romance, e ser padrozinada para tal (bonita, sorridente, arrumada, feminina, reservada, etc) e trabalhar sobre um olhar incômodo, traz uma reflexão sobre como enxergamos a mulher hoje, e se isso incomoda, é porque estamos mudando e evoluindo. Acho super válido essa releitura da história.

  2. Oi,tudo bem ?

    Primeiramente tenho que confessar que este livro está na minha lista de desejados a um tempão e esse post só me lembrou do tanto que quero ler ele. Gostei da proposta do livro, essa repaginada e qualidade da Editora também é um ponto alto. Com toda certeza é uma ótima dica de leitura.

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